Sabiam meus camaradas que ja houve uma provincia anarquista no Brasil?
pois e, isso foi na epoca de Dom Pedro II e nao nos e divulgado ate hoje. Abaixo esta a foto e a historia dessa singela provincia.
Em finais do século XIX Milão despontava,
no panorama artístico europeu, pela grandiosidade de seu
teatro, por sua vivência cultural e pelo requintado gosto de
seu povo. Neste contexto, Giovani Rossi expunha idéias
arrojadas a ouvintes atentos. Em conferências e artigos
semanais no jornal Lo Sperimentale, de Bréscia,
notabilizava-se por seu humanismo e alta compreensão dos
problemas sociais dos artesãos, professores e lavradores da
região onde vivia. Filósofo anarquista, pronunciava
palestras a ouvidos atentos.
D. Pedro II, graças à sua doença, é
aconselhado pelos médicos a se tratar na Europa, e depois de
várias escalas chega a Milão, em 29 de abril de 1888. Por
intermédio do conde de Mota Maia, o Imperador tem
conhecimento da obra Il Commune in Riva al Mare, de Rossi, e
mostra-se interessado pelo conteúdo humano de seus escritos
- que descreviam uma hipotética experiência anarquista em
país americano, onde individualismo livre só cederia ao
coletivismo se estivesse totalmente impregnado de egoísmo,
onde o ideal de liberdade suporia amor livre, inexistência
da propriedade privada, ausência de qualquer dogmatismo. Já
em agosto, após o regresso ao Brasil, D. Pedro II escreve ao
jovem professor, oferecendo-lhe oportunidade de efetivar, na
região Sul brasileira, na Província do Paraná, a objetivação
de seu ideal.
Servindo-se do semanário Lo Sperimentale,
de Bréscia, Rossi incitou intelectuais, obreiros e
lavradores, à viagem experimental. Não descansava,
propagando o anarquismo. Freqüentando sedes de corporações
operárias, aconselhando lavradores pressionados pelos
desajustes econômicos da Itália, animando os temerosos, foi
engrossando o número de interessados. Pequenos artesãos e
intelectuais aderiram facilmente à idéia, alguns e outros
desiludidos com as lutas cansativas pela unidade política
italiana. Foram sensíveis, desta forma, aos acenos de uma
terra nova, com múltiplas possibilidades de uma vida nova.
Trezentos alqueires de terras - mais do que poderiam obter
em qualquer região da Itália - pareciam mais do que
suficientes para que aquelas famílias pudessem buscar a
aplicação prática de seus ideais.
Em 20 de fevereiro de 1890 zarparam em
Gênova cerca de 150 anarquistas italianos. Chegando ao
planalto dos campos gerais, instalaram-se no que seria o
núcleo Cecília em abril de 1890.
O obstáculo com que se defrontou,
inicialmente, o núcleo anarquista foi o da organização para
o trabalho. Os componentes da imigração vinham precedidos de
vocações profissionais, afirmadas em tradições seculares.
Giovanni Rossi pressentia naquele instante que até mesmo
lavradores sentiriam dificuldades, acostumados a outro tipo
de solo. O caso dos artesãos se tornava ainda mais
complicado, sendo que a solução encontrada foi justamente
dar-lhes tarefas aproximadamente similares às suas
profissões. Concluídas as habitações individuais e
coletivas, dividido racionalmente o trabalho, entre o
contingente de mais de 150 pessoas, os anarquistas se
depararam com um fato real: o milho, produto ideal para o
cultivo naquelas circunstâncias, não nasce da noite para o
dia. No começo, tiveram condições de subsistirem e laborarem
a terra graças ao dinheiro que trouxeram, aos instrumentos
de trabalho que adquiriram e à compra de sementes e
mantimentos. No entanto, viram-se obrigados, mais tarde, a
procurar tarefas que lhes proporcionassem o sustento até que
pudessem viver tão somente das atividades do núcleo. Os
anarquistas concentrados, uns na lavoura, outros em
empreitadas contratadas junto ao governo para a construção
da estrada de rodagem Serrinha-Santa Bárbara, recebiam
salários semanais que auxiliavam os companheiros da Colônia.
No suor de cada dia, os anarquistas plantaram mais de
oitenta alqueires de chão, na área em que lhe foi cedida,
mais dez quilômetros de estrada construíram, em época onde
inexistiam possantes máq uinas, nem tratores, muito menos
guindastes de transporte de terras para ajudar. Um barracão
coletivo, vinte barracões individuais, celeiros, casa da
escola, moinho de fubá, tanque de peixes, pavilhão coletivo,
que também servia de consultório médico, viveiro de mudas,
poços, valos, pomar de pêr as, estábulos, grande lavoura de
milho, tudo denunciava dinamismo. Proporcionalmente ao suor
do trabalho cresceu o respeito recíproco e puderam as
famílias, na colônia e fora dela, assentar profundas raízes
de solidariedade humana.
De princípio, em 1890, a estratificação
social não chegou a ser perceptível no interior da Colônia,
porque tudo precisava ser feito e todos queriam fazer,
dentro das possibilidades pessoais e grupais. Chefias e
subordinações eram substituídos por estímulos constantes e
recíprocos que entre si faziam seus membros. No entanto, os
colonos não puderam manter-se afastados das condições
existenciais das comunidades, próximas e distantes. Com elas
interaram-se os anarquistas, através de ligações comerciais
e espirituais. A imprescindível compra de trigo, fubá,
feijão, carne, implicou em revisões de conceitos teorizantes
de anarquismos, e a estratificação social se fez. Diferente,
sem dúvida, daquela maior, avassaladora, fundamento das
comunidades rurais brasileiras, a estratificação que se
observava nos campos gerais, feita de rígida hierarquia
social, a qual se sentia e ainda se sente - prepoderância de
elos de dependência da grande massa de trabalhadores a
limitado número de proprietários rurais. Quando a assembléia
precisou delegar responsabilidades a alguém para gerir todo
o dinheiro do núcleo, criou um estrato que seria, mais
tarde, responsável em grande parte pelo fracasso da
experiência. Contudo, é importante destacar que tal
estratificação complementou-se com convenção objetiva,
determinada pela aceitação e consenso geral.
Entregues à agricultura, à edificação de
casas, às tarefas educacionais, os anarquistas não dispunham
de maior oportunidade de relacionamento com o meio externo.
O núcleo consumia-lhes toda a atenção, e mostravam euforia
nas ocupações. Giovani Rossi inicialmente supunha que a área
de trezentos alqueires reservada à Colônia possuísse uma
superfície bem delimitada, vizinhos conhecedores de seus
direitos e respeitadores das confrontações estabelecidas.
Sem a posse dos documentos que comprovassem a propriedade
foi, no entanto, surpreendido por um terreno inculto, não
medido, de vizinhos inconscientes do que lhes pertencia e,
ainda, com o regime imperial extinto em nome da República.
Diante de tal conjuntura, desinteressou-se de fazer gestões
para medir, transferir domínio ou qualquer relação jurídica
com a propriedade. Nela simplesmente viveria com seus
companheiros; trabalhariam os campos, fariam riquezas
comuns, levantariam edificações comuneiras, oficinas,
escolas, uma colméia de trabalho e de satisfações
espirituais. Não contava desta forma com uma pol ítica de
concessão de terras, com os favores oficiais e com um
processo pol ítico interno que buscaria reorientar a
administração.
Nesse caso observa-se que uma mudança no regime politico de um pais nao pode começar aos poucos em areas isoladas pois o fantasma da ganancia e do capitalismo acaba por corromper o espirito do anarquismo mutuo.